Quando o carteiro chegou…

Mary, minha cocadinha veneziana

Quando o carteiro chegou, com sua carta na mão, fiquei exultante, saltitante como as lebres que povoavam o jardim da Mansão dos Willinsdorph nos áureos tempos… Saudosa estava eu de nossa correspondência íntima! Elas são a única forma de exercitar essa língua tupiniquim, já que os rapazes dos quais sou preceptora não possuem mais que sete palavras em seu vasto repertório vocabular e as usam para todos os fins, mudando apenas a inflexão e alguns gestos enfatizadores.

Querida, não se assuste com os últimos acontecimentos ocorridos aqui na cidade maravilhosa. Nada disso é novidade por aqui e já nos habituamos com o fato de que não é só chuva que cai do céu. Helicópteros também! Isso já é tão corriqueiro que o Secretário de Segurança comparou os armamentos que alvejaram com precisão o helicóptero da polícia com os utilizados no Vietnã e na guerra das Malvinas. Viu como tudo isso é banal, meu anjo? Não se preocupe, meu Ganache de chocolate amargo! Você também se habituará, como todos os habitantes desse país tropical e por Deus abençoado! Além disso, escalei a ladeira rumo à mais alta mansão do Condomínio Alto São Conrado para comunicar ao patrão dos comerciantes informais que, acaso avistem no céu o seu veículo voador rosa, não estarão vislumbrando um disco voador,  tampouco estarão desfrutando dos efeitos do produto que comercializam, mas tendo a honra de testemunhar a nova aquisição de minha amiga Mary! Venha visitar-me sem medo de ser alvejada e cair no solo como uma pomba decrépita!

Mas, Mary, por que não me mandou um sinal de fumaça relatando que iria em missão ao Haiti? Como amiga prestimosa e dadivosa, teria eu tomado o seu lugar de bom grado! Minha herança tradicional de família me faz abraçar causas nobres e apoiaria com toda a minha gentileza e generosidade os bravos representantes do Exército Brasileiro. Só não aceitaria o papel de coadjuvante ou mera colaboradora! Ravenninha, essa mulher que vos escreve, daria conta de todos os soldados sozinha!

Aguardo com ansiedade a sua visita, mas preciso lhe dizer algo: não aceitarei nenhuma ajuda filantrópica no meu trabalho como preceptora, caso decida estender muito sua estada no Alto São Conrado. Recebi na semana passada a nossa amantíssima e venerável amiga Paris Hilton e, na primeira tentativa de colaboração, pedi que retornasse a seu país, sem deixá-la sequer despir a alça do soutien. Já me basta o duvidável comportamento dos rapazes dos dias atuais, que, quase sempre promovem lutas marciais entre si e acabam por esfregar com sofreguidão sua pele na do outro, como num antropofágico ritual metrossexual. Saudades do tempo em que o mundo era mais simples, dividido entre heteros e homos, mocinhos e bandidos, crespos e lisos…

Meus meninos com uniforme de aula...

Meus meninos com uniforme de aula...

As crianças acima não te remetem a uma atmosfera lúdica e encantadora? Diante deles, tenho desejo de repetir a frase do ilustre fotógrafo brasileiro Alair Gomes que, diante da escultura Davi, de Michelângelo, suspirou: “Sinto-me, então, como se estivesse diante de um adolescente extraordinariamente esplendoroso que, de boa vontade, consentiu em posar pra mim, desnudo, o que me desvanece.” Alair, que assim como eu tinha obsessão pelo corpo masculino, tem agora no Paço uma retrospectiva de suas fotos, após mostra em várias galerias européias. Irei agora mesmo ao Paço, amiga… Pela arte de Alair, claro!

Tomara que a cesta básica com as baguetes, fois grás e presunto de Parma não tarde a chegar… Se a crise financeira mundial abalou os alicerces seus, imagine só os fragilizados economicamente, como eu, que sequer construímos casas com alicerces? Confesso, amiga e confidente, que invejei os olhos de cabra e ovos galados degustados por participantes de um programa na televisão brasileira…

Que tal Veneza nessa época do ano? Aqui, no Condomínio Alto São Conrado, Rio de Janeiro, já não sabemos em que estação estamos, tal a confusão climática. Saudades da Europa e dos sinais deixados no ambiente, diferentes a cada estação…

Saudações para o Holmes, seu último marido e uma bitoca em sua testa, tão murcha e necessitando de uma repaginada.

Carmen

 

 

 

 

 

Ravenninha

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